Certa manhã eu viajava de Quixadá para Fortaleza como o fizera dezenas de vezes antes. Cuidadosamente
optei por um ônibus executivo para chegar mais rápido e sem problemas. Logo no início notei que o
sol estava do meu lado que deveria ser lado da sombra. A paisagem lá fora me era estranha. Havia
muitos indícios de que estávamos no caminho errado, porém não me ocorria a idéia de que o motorista
ao sair de Quixadá seguisse a direção errada. Quando este percebeu seu erro não havia mais chance
de voltar, mas apenas seguir adiante numa viagem que aumentou em 80 km, nosso percurso. Depois constatei
que alguns passageiros, como eu, haviam notado o erro. Ninguém, porém tomou a iniciativa de questionar
o motorista. Por que não houve alguém que tomasse a iniciativa de evitar o transtorno para motorista
e passageiros? Será que nos falta o que podemos chamar de conscientização ou responsabilidade social?
No primeiro filme “Aeroporto,” de 1970, o avião deve voltar ao terminal porque um passageiro levava bomba
a bordo. O Boeing faz uma curva suave de 180º. Um menino prodígio, numa poltrona observa as estrelas e diz
ao co-piloto:
-“Nesta posição a constelação das Virgens deveria estar ao norte e aqui aparece ao sul.”
O co-piloto responde com uma frase evasiva e abstrata.
O pai ordena ao filho que se cale.
Nestas duas historias chamamos a atenção para uma atitude essencial ao educador – saber conduzir. O bom
educador não se omite porque a omissão tem conseqüências presentes e futuras graves na formação. Uma mãe
que se omite na educação do filho pagará caro mais cedo ou mais tarde.
Na Grécia antiga o pedagogo era o escravo que conduzia
a criança para a escola pela mão. Conduzir é levar pelo caminho certo,
é ensinar a olhar a paisagem do caminho – a ver que naquela posição a constelação das Virgens deveria estar
ao Norte; discernir os atalhos enganosos; despertar para a busca do essencial da existência.
O educador é o líder; é aquele que sabe conduzir, sem apropriação e sem dominação. O educador deve ser
treinado na arte da liderança como arte de conduzir. Arte neste sentido é aquele fazer que brota do
interior mais profundo, assim como Picasso tirava seus personagens dos abismos de si próprio através
de uma meditação solitária e solidária.
Para refletir cito um texto de Martin Buber (*) em Histórias do
Rabi, intitulado:
A Partilha:
“Antes de morrer, o Rabi Elimelech depôs as mãos sobre as cabeças de seus quatro discípulos preferidos
e repartiu entre eles os seus bens. A Iaakov Itzhak, deu o poder de seus olhos para ver; A Abraão Iehoschua,
o poder de sua boca para julgar; a Israel de Kosnitz, o poder de seu coração para orar, mas a Mendel ele deu
o poder de seu espírito para conduzir.”
O que o Rabi Elimelech possuía de mais precioso não era o poder dos olhos,
nem a faculdade de julgar, menos ainda o poder do coração para orar (!) mas o poder do seu espírito
para conduzir.
Quem conduz bem possui a sabedoria, tesouro precioso o qual vale a pena vender tudo para adquiri-lo